Barbie e o som dos tabus caindo no chão

 


(Contém doses de spoiler)

Estamos vivendo um grande momento do cinema, onde a publicidade, indústrias, o mercado capitalista e os olhares se voltam à grande explosão de sucesso que é o filme barbie, chamado por muitos de: O filme do ano. É notório que se trata de uma grande produção e com ela, naturalmente vem diversas opiniões, das mais plurais possíveis, o que faz total sentido, já que vivemos numa sociedade plural. Diante desse boom, me vi incentivada a partilhar alguns pontos que, enquanto sociedade, precisamos repensar e a produção foi muito coerente em trazê-los. 

Bom, que Greta Gerwig é genial, a gente já sabe. Mas, confesso que estava muito ansiosa pela trama que seria criada sobre a boneca mais famosa do mundo. Essa semana, vi uma publicação no instagram que dizia exatamente o seguinte: “Gente, não quero problematizações do filme da barbie. ‘Ah, mas a análise sociológica’, guarda pra você. ‘Pq não sei o que’ guarda pra você. Eu quero um mundo cor de rosa, quero a barbie patinadora, barbie fashionista, quero sorriso, plástico e felicidade.” (Ufa, fecha aspas), printei na hora e pensei como essa pessoa sairia da sala do cinema após assistir (rsrs). O filme é uma sátira que contém diversas críticas e problematizações, com piadas ácidas e reflexões IMPORTANTÍSSIMAS, das quais gostaria de trazer aqui: 

  • Elitização- Sabemos o quanto a barbie foi uma boneca inacessível para nossa época de infância, como se não fosse feita para todos (Inclusive existe um artigo maravilhoso relacionando alguns pontos com a psicologia, que posso enviar para quem quiser). Existem críticas voltadas a essa divisão socioeconômica, que quem assistir prestando bastante atenção, consegue perceber a discrepância. 

  • Etarismo- Um dos convites a refletirmos enquanto sociedade, de como a mulher simplesmente parece que não tem o direito de envelhecer. O que nos leva ao próximo ponto, o tão conhecido, vivenciado, causador de sofrimento psíquico:

  • Estigma do padrão de beleza- A barbie estereotipada (SIM, apresentada dessa forma), faz uma crítica muito forte ao padrão de beleza inalcançável que desde que o mundo é mundo, tem causado sofrimento a tantas mulheres. Ela se apresenta muitas vezes como a barbie que tem que ser perfeita o tempo todo, até mesmo colocando seus sentimentos em segundo plano. O que me faz lembrar de Foucault trazendo a subjetividade e como ela é construída com tudo que nos atravessa. E nós, na psicologia/psiquiatria, nos deparamos com diversas pessoas em sofrimento psíquico, imersas em transtornos, como por exemplo: anorexia nervosa, bulimia nervosa, transtorno dismórfico corporal e outros, que vem dessa busca desenfreada por uma perfeição que não existe. Precisamos cuidar dessas pessoas e suas dores. 

  • Morte- Sim, a barbie começa a pensar na morte e isso é algo que ainda temos muitos tabus para falarmos. Estudando tanatologia no período passado, percebo que falar da vida que finda, é necessário e faz menção muito mais à própria vida. (Sugiro o livro: “A morte é um dia que vale a pena viver, da incrível Ana Clara Quintana Arantes). 

Agora, trazendo para o universo corporativo, temos problematizações extremamente pertinentes à mattel, como por exemplo, quando aparece a barbie grávida e a narradora diz que foi retirada de linha, já que a mattel achou estranho uma boneca grávida (o curioso é que em todos os momentos que ela aparece, o espanto é mencionado, vale a reflexão de como as mulheres gestantes são tratadas pela sociedade e pelas empresas). Outra realidade na qual não se esperava que fosse exposta de forma clara e sem filtros, é o fato de que muitas empresas que se dizem até mesmo prezarem pela atenção às mulheres e à diversidade, na realidade contam com muita dissimulação discursiva, construindo muros cada vez mais altos e impedindo que as mulheres estejam na liderança e no reconhecimento. Um exemplo claro disso, é a grande sala de reunião da diretoria da mattel, num momento de definição do que seria melhor para o público feminino, todo o corpo de diretoria e liderança, formado apenas por homens brancos. E a assessora executiva que fica fora da sala e não tem reconhecimento algum, é chamada pelo diretor de secretária (e ele nem lembra o nome dela). Quantas empresas ainda são assim, não é mesmo?

A barbie que começa a ter sentimentos diversos e precisa ir ao mundo real para a tentativa de solucionar o que chamam de “defeitos” nela mesma para retornar à Barbieland e assim, manter a ordem e o universo cor de rosa perfeito, lindo e feliz, é colocada mais uma vez numa caixa, pelo senhor Mattel que tem todas as ideias mais sem sentido possíveis e por muito pouco, consegue escapar e não ser presa mais uma vez e assim, vai em busca do seu autoconhecimento (que é mencionado como o reconhecer a si mesma(o) na trama. 

Ao adentrar no mundo real (com o Ken a seguindo- nunca gostamos do Ken, a propósito rsrs), ela fica horrorizada em como é assustador e absurdo o machismo, o patriarcado, todos os assédios que ela sofre apenas por estar passando na rua e tudo é mostrado da forma mais coerente possível, é assim mesmo que acontece. Já o Ken, ao conhecer o mundo real, tem a conclusão que o mundo é dos homens e tenta dominar tudo e essa parte, deixarei para vocês analisarem essa inserção do patriarcado no lugar de protagonismo feminino. O que quero trazer é esse protagonismo, lindamente partilhado com o público, fazendo barulho de revolução, em um filme que muitos acharam que seria um “ah, que fofinha, que romântico, que doce”, trazendo as barbies diversas, mulheres ocupando espaços, poder, presidência, sendo felizes, sendo donas da própria vida e escolhendo isso (o que é reforçado no final), as barbies plurais, trazendo o que a sociedade não reconhece por não estar no estigma de padrão imposto, as barbies pretas, gordas, trans (e, tive a infelicidade de ouvir reações preconceituosas de quem estava assistindo, retrato da sociedade preconceituosa em que vivemos). 

Me deparei com minha criança interior sendo abraçada por toda resistência feminina que me permitiu chegar até hoje também fazendo revolução na ciência, nos negócios, nas empresas, nas faculdades, na sociedade como um todo. O filme não é para crianças, é para adultos que precisam transformar o mundo num lugar melhor para as crianças também. Para que as meninas (e meninos) entendam que podem conquistar o que quiserem. Fala sobre feminismo, a vida real, a resistência feminina, sororidade, amar a si mesma com suas particularidades (celulites, emoções), enfim, fala sobre muitas coisas que são necessárias e que não se imaginavam sendo faladas assim num filme da barbie. O som do tabu caindo foi de estremecer qualquer estrutura. Enquanto mulher, profissional e todas as minhas versões, entendo que há um longo caminho, mas que estou abrindo para que minha filha um dia seja uma mulher ainda mais potente. Assistam, vale super!! 


Espero que este conteúdo te ajude de alguma forma! 

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Cordialmente,

Janaína Maria.


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